De vez em quando surgem alguns filmes que, embora sejam bastante elogiados por onde são exibidos, acabam passando desperecidos pelo grande público.

Isso pode acontecer por vários motivos, como atraso na distribuição, data equivocada de lançamento, uma publicidade fraca/mal direcionada, entre outros fatores.

Ready or Not é um destes casos. Agendado para ser lançado nos cinemas brasileiros no ano passado, o filme acabou saindo da grade de programação sem explicação.

Depois de um tempo, apareceu em serviços de video on demand, sob diferentes títulos, como O Ritual e Casamento Sangrento.

Ready or Not

Isso é uma pena, pois trata-se de um ótimo filme, que merece ser descoberto pelo público. E foi pensando nisso que eu preparei este especial.

Ao longo deste post, vou apresentar:

  • Uma crítica completa do filme, abordando o seu subtexto político/social
  • Um perfil da dupla de diretores, incluindo os seus próximos projetos.
  • Curiosidades acerca do filme, como a sua relação com jogos de tabuleiro.
  • Uma lista de filmes que tratam de temáticas simulares, além de
  • Fotos e trailer legendado do filme

Meu propósito é fazer com que você crie interesse em ver esse filme. Ou, se já o assistiu, quem sabe queira revisitá-lo após ler esse texto.

Comecemos, então, pela crítica do filme.

Crítica | Ready or Not explora conflitos sociais de maneira bem-humorada

Não é novidade que o cinema goste de retratar as discrepâncias sociais entre as classes menos e as mais favorecidas. No ano passado, uma grande leva de filmes abordou essa questão, de maneira direta ou indireta, como Parasita, Coringa e Nós.

A ressurgência dessa temática, é claro, tem uma razão política.

Desde a eleição de Donald Trump, muito se tem falado a respeito do 1% mais rico, ou seja, sobre empresários bilionários que enxergam o restante da população como meras engrenagens na máquina que produz a riqueza deles.

Assim como é comum no gênero de terror, Ready or Not utiliza-se de metáforas para falar sobre questões sociais pertinentes. E o faz não apenas de maneira eficaz, como extremamente divertida.

Ready or Not

Escrito por Guy Busick (série Watch Over Me) e Ryan Murphy (Minutes Past Midnight), o roteiro acompanha Grace (Samara Weaving), uma jovem de família humilde prestes a se casar com o milionário Alex (Mark O’Brien).

Grace nunca se sentiu parte de uma família, e anseia que isso mude uma vez que ela adentre o clã da família Le Domas, donos de um império de jogos de tabuleiro. Seu desejo de ser abraçada pelo calor familiar a faz ignorar as estranhezas dos Le Domas.

Mas tudo muda na noite do casamento – realizado na mansão deles.

Em vez de aproveitar a sua lua de mel, Grace é convidada a participar de um jogo envolvendo toda a família. Trata-se, segundo eles explicam, de uma tradição, uma maneira de acolher novos membros.

A ideia é que ela retire uma carta de baralho e isso vai determinar o jogo daquela noite.

Porém, quando ela retira uma carta escrita “esconde-esconde”, é iniciado um jogo mortal, no qual os Le Domas precisam caçar e matar a noiva, antes do amanhecer do dia, numa cerimônia de sacrífico que garantirá a manutenção da fortuna deles.

A crítica social proposta pelo roteiro é explicitada ao longo de toda a narrativa. A figura demoníaca com a qual a família fez um pacto em troca de riqueza pode ser entendida como o próprio capitalismo.

Ready or Not

Busick e Murphy insistem nessa sua crítica, optando por não desenvolver nenhum dos personagens, tornando-os, em vez disso, opacos e caricatos.

A família Le Domas é composta por pessoas desprovidas de emoção e incapazes de assumir responsabilidades pelas suas ações – como é o caso da cunhada de Grace que “acidentalmente” mata alguns dos empregados da casa.

O único a ganhar um pouco mais de atenção é Daniel (Adam Brody), visto como alguém preso às tradições da família, mesmo discordando delas.

Por mais que também não ganhe um grande desenvolvimento narrativo, a protagonista Grace compensa pelo carisma de Samara Weaving. A atriz, que já havia chamado atenção na comédia de terror A Babá, encarna a sua personagem com graça e determinação.

Vinda de lares adotivos, Grace acreditava que sua vida só estaria completa se ela participasse de uma família. Por isso, ela se “disfarça” como um futuro membro dos Le Domas, vestindo-se e portando-se do jeito que ela julgava ser digno da alta sociedade.

À medida que o filme avança, porém, seu comportamento muda. Tal mudança é acompanhada pelas alterações no figurino. Ao mesmo tempo, ela conhece os segredos sujos daquelas pessoas e estes segredos ficam impregnados na sua roupa.

Ready or Not

Embora tenham começado a carreira na comédia (leia mais sobre isso abaixo), nos últimos tempos os diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett vinham se dedicando a narrativas mais densas, como o terror O Herdeiro do Diabo.

Aqui, porém, eles pisam no freio para investir em uma trama um pouco mais leve e divertida. Mas isso não os impede de criarem sequências impactantes, como a cena envolvendo um prego faz qualquer um se revirar na poltrona.

A mistura de terror e comédia é eficaz. Ambos são gêneros que dependem de um timing muito específico para funcionarem, ambos provocam reações físicas no espectador (o riso e o susto) e ambos servem de metáforas para situações contemporâneas.

E Ready or Not é um ótimo exemplo disso.

Perfil dos diretores: Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett

Matt Bettinelli-Olpin começou a sua carreira em 1998, quando escreveu e dirigiu o documentário It Came from Hollywood.

Depois disso, ele fez alguns trabalhos como ator em curtas-metragens e projetos para a TV.

Bettinelli-Olpin voltou à cadeira de diretor apenas 9 anos depois da sua estreia, quando passou a comandar uma série de curtas-metragens de ficção.

Os curtas que ele dirigiu são Happy Halloween (2007), Prison Break (2008), The Danger Zone (2008), The Alibuys (2008), em que ele também atuou.

Tyler Gillett iniciou a carreira como operador de câmera e diretor de fotografia em curtas-metragens.

Seu primeiro trabalho como diretor foi na série The Midnight Show (2008).

Mesmo depois de começar a dirigir, Gillett manteve-se atuante nas funções de diretor de fotografia e operador de câmera.

Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett

Por volta de 2010, Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett se uniram ao cineasta Chad Villella para formar a trupe conhecida como Radio Silence.

Eles trabalharam juntos em uma série de curtas chamada Chad, Matt & Rob. Seus curtas normalmente misturavam terror e comédia.

A Radio Silence também assina a direção de dois segmentos de duas antologias de terror: V/H/S (2012) e Southbound (2015), esta última também produzida por eles.

Chad Villella acabou deixando a função de diretor para se dedicar à produção.

Em 2014, Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett dirigiram o seu primeiro longa-metragem: O Herdeiro do Diabo (2014).

Ready or Not (2019) é o segundo longa-metragem da dupla. Recentemente foi anunciado que eles vão comandar o próximo filme da franquia Pânico.

Curiosidades sobre Ready or Not

A proposta inicial de Ready or Not, de centrar a sua narrativa em torno de uma uma família dona de um império de jogos de tabuleiro tem o seu pé na realidade.

A grande inspiração para os realizadores foram a Milton Bradley Company e a Parker Brothers, duas empresas pioneiras no ramo de jogos de tabuleiro, que fizeram fortuna.

A primeira criação de Milton Bradley nessa área foi o jogo The Checkered Game of Life, que em 1861 vendeu mais 45 mil cópias.

A fabricante continuou produzindo jogos mesmo depois da morte do seu criador, quando o comando da empresa foi passado para o seu filho (assim como é visto no filme).

Ready or Not

Já a Parker Brothers foi criada em 1883 por George Parker. A empresa ficou conhecida por ter criado o jogo Monopoly, tornando-se uma referência nessa área.

A Parker Brothers havia sido extinta em 2009, mas foi revivida em 2017, quando foi adquirida pela Hasbro.

A relação dos jogos de tabuleiro com o filme é ainda mais próxima.

Seis dos métodos de assassinato disponíveis no jogo Detetive são utilizados ao longo do filme. São eles:

  • revolver,
  • veneno,
  • corda,
  • machado,
  • adaga
  • lanterna (no lugar do candelabro).

Fonte das curiosidades: IMDB.

Filmes que abordam a divisão de classes:

Nos últimos anos, diversas produções abordaram o tema das disparidades sociais. Isso se deve, em parte, à ascensão de Trump ao poder. Porém, a temática é muito mais antiga do que isso.

Recentemente, o podcast Nightmare University fez um especial sobre esse tema. Segue abaixo alguns dos filmes que eles citaram e outros que eu acredito que também merecem seu lugar na lista.

Metropólis

Clássico do cinema mudo, Metrópolis mostra uma sociedade geograficamente dividida entre aqueles que vivem na superfície e aqueles que vivem no subterrâneo.

Dirigido por Fritz Lang, esta ficção científica se passa em uma cidade futurista que se divide entre a classe trabalhadora e os planejadores da cidade.

É então que o filho do mestre da cidade se apaixona por uma profeta da classe trabalhadora, que prevê a vinda de um salvador para acabar com as disparidades entre as classes.

Eles Vivem

Mistura de ficção científica com terror, Eles Vivem conta a história de um homem desempregado quem encontra um óculos de sol capaz de fazê-lo enxergar a verdadeira realidade do mundo onde vive.

Dirigido por John Carpenter, o filme é uma crítica ácida à sociedade consumista. A invasão alienígena vista aqui serve como metáfora para o controle estabelecido pelo capitalismo.

E a divisão social não se dá apenas entre aqueles que vivem à margem e ao centro da sociedade, mas também entre os que querem e não querem enxergar a verdade.

Brazil – O filme

Ficção científica dirigida por Terry Gilliam, Brazil – O filme se passa em um futuro indefinido e mostra uma sociedade ameaçada por uma espécie de distopia burocrática.

Na trama, um funcionário público sonhador investiga os erros por trás de uma cobrança indevida e se depara com uma realidade completamente diferente da sua.

Nesta realidade, alguns vivem no alto e outros no nível do chão. O distanciamento é tamanho que a alta sociedade parece sequer saber da existência das outras pessoas.

Expresso do Amanhã

É fácil falar da questão social presente em Parasita, filme sul-coreado que fez história ao vencer o Oscar de Melhor Filme. Mas poucos se lembram que o diretor Bong Joon Ho já havia abordado temas similares antes.

É o caso, por exemplo, deste Expresso do Amanhã. Na trama, o mundo todo congelou e os únicos sobreviventes do apocalipse são os passageiros de um grandioso trem.

Expresso do Amanhã

A divisão é clara: existe aqueles que vivem na parte de trás do trem (amontoados e passando necessidades) e aqueles que vivem na frente (com todo o conforto possível).

Que Horas Ela Volta?

O cinema nacional também aborda os temas de disparidades sociais e conflitos de classes. Um dos mais exemplos mais significativos, e que chamou atenção internacional, é Que Horas Ela Volta?

O filme de Anna Muylaert conta a história de uma empregada doméstica que recebe sua filha para ficar algum dias na casa dos patrões. A obra expõe as divisões sociais que operam naquela microcosmo.

A filha da protagonista representa uma ameaça às “normas não ditas” daquela sociedade, justamente por questioná-las. A metáfora da piscina é um bom exemplo disso.

Gattaca – A Experiência Genética

Ficção científica escrita e dirigida por Andrew Niccol, Gattaca – A Experiência Genética se passa em um futuro no qual é possível manipular geneticamente os bebês antes deles nascerem.

Isso permite aos pais escolherem as características físicas dos seus filhos (como a cor dos olhos e dos cabelos), além de corrigir qualquer propensão genética a alguma doença.

O protagonista é um sujeito que não foi manipulado durante a gestação e, portanto, é considerado geneticamente inferior. Ele precisa burlar o sistema para poder realizar seu sonho de ser um astronauta.

Elysium

Praticamente todos os filmes do cineasta Neil Bloomkamp falam de problemas sociais e sobre divisão de classes, mas a ficção científica Elysium talvez seja o exemplo mais explícito.

Aqui, a sociedade é dividida entre aqueles que vivem na Terra (ou seja, na parte de baixo) e aqueles que vivem em órbita no espaço (em cima).

A trama acompanha um sujeito que tenta reverter essa realidade. Mas, para isso, ele precisa invadir a fortaleza espacial.

Nós

Segundo filme do cineasta Jordan Peele, Nós é uma obra que aborda de maneira metafórica as divisões sociais.

Na trama, uma família de classe média é aterrorizada pelas suas “sombras”, ou seja, por versões sombrias delas mesmas.

Estas sombras são manifestações dos privilégios de uma determinada classe social, em detrimento das outras.

Leia o especial que eu fiz sobre Nós para saber mais sobre o filme.

Entre Facas e Segredos

Entre Facas e Segredos coloca a questão social no centro da sua narrativa. Pois se nos livros de Agatha Christie (uma clara referência aqui) era comum que o mordomo fosse o culpado, aqui o trabalhador é vítima da ganância aristocrática.

A trama acompanha uma jovem enfermeira que se torna a principal suspeita no assassinato do seu patrão, um rico escrito de livros de mistério. O crime serve para revelar os segredos daquela família, cuja riqueza os torna totalmente deslocados da realidade.

Curiosamente, o diretor/roteirista Rian Johnson já havia abordado questões sociais em Star Wars – Os Últimos Jedi (leia a minha crítica aqui), mas as suas mudanças não agradaram muito aos fãs.

Assista ao trailer legendado de Ready or Not:

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