Nós | Crítica, curiosidades, trailer e muito mais sobre o filme de Jordan Peele

Nós | Crítica, curiosidades, trailer e muito mais sobre o filme de Jordan Peele
 
Com o lançamento de Corra! em 2017, o então novato cineasta Jordan Peele foi imediatamente elevado ao panteão dos grandes realizadores do cinema atual. Recheado de simbolismos, contendo uma mensagem social pungente e com uma linguagem que misturava diferentes gêneros, o longa foi um grande sucesso, valendo-lhe até mesmo de reconhecimento da academia, que o premiou com o Oscar de Melhor Roteiro Original. Logo, muita expectativa foi gerada em relação ao seu retorno à cadeira de diretor. E embora Nós, seu trabalho mais recente, seja inferior ao filme que o precedeu, isso acontece apenas porque o patamar estava alto demais, e não por deméritos desta nova obra.
 
A trama tem início na década de 1980, época de projetos sociais como o Hands Across America e do lançamento do videoclipe Thriller. É também uma época em que as crianças brincavam mais ao ar livre, muitas vezes sem a supervisão de um adulto. Em meio a este cenário nostálgico, a jovem Adelaide (Madison Curry) caminha pelo parque de diversões com seu pai e sua mãe. É visível que o casal tem problemas no seu relacionamento. A bebedeira e o comportamento do marido (Yahya Abdul-Mateen II) incomodam a esposa (Anna Diop). Esta, por sua vez, tenta manter a calma pelo bem da criança que, esquecida em meio aos problemas do casal, caminha longe deles, olhando-os sempre de costas – e o fato de Peele esconder os rostos dos adultos durante toda essa sequência inicial reforça o deslocamento da garota.
 
A atmosfera de horror é estabelecida desde o início, quando o diretor cria tensão em cenas aparentemente normais, fazendo com que o público espere que algo aconteça – embora não saibamos exatamente o que irá acontecer. Essa atmosfera faz parte da intertextualidade característica do terror, em que cada filme dialoga com todo um imaginário criado em cima do gênero. Sabemos que alguma coisa de ruim pode acontecer porque já vimos acontecer diversas vezes.
 
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Aproveitando um momento de negligência do pai, Adelaide se afasta dele e parece ser atraída para uma casa de espelhos na praia ali perto. Lá dentro, a luz se apaga e ela anda pelos corredores de espelhos assustada, vendo a sua imagem refletida nas paredes. Porém, ela logo percebe uma imagem diferente. Uma que parece um reflexo, mas não é. A visão a assusta e, conforme descobriremos, a traumatiza para o resto da vida.
 
Mais de três décadas depois, a agora adulta Adelaide (interpretada por Lupita Nyong’o) volta para a cidade que marcou a sua infância, desta vez acompanhada pelo marido Gabe (Winston Duke) e o casal de filhos, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex). Trata-se de um ritual que eles fazem todos os anos, mas, assim como nas ocasiões anteriores, ela procura se manter afastada daquela praia. Os fantasmas do passado ainda a assombram. Tanto é, que Adelaide não consegue sequer manter uma conversa casual com um casal de amigos (interpretados por Elisabeth Moss e Tim Heidecker).
 
Durante a primeira noite da família de Adelaide na casa, eles são surpreendidos por um bizarro grupo de quatro pessoas do lado de fora, tentando entrar. A princípio, pode parecer que este é apenas mais um exemplar do chamado home invasion, um subgênero que toca numa ferida da cultura norte-americana: o medo de que a santidade do seu lar seja ameaça por invasores externos. É com base nesse medo e na necessidade de proteção que ele gera que indústria armamentista se mantém tão forte até hoje.
 
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Embora o subtexto político não seja tão escancarado, alguns diálogos apontam para esse caminho, como quando a protagonista pergunta quem são aqueles invasores e eles respondem: “Nós somos americanos”. Porém, como já é característica do cinema de Peele, suas obras não se enquadram dentro dos limites de um único gênero e, depois de um tempo, o home invasion fica pequeno demais para o que ele tinha planejado. É revelado, então, que as pessoas ameaçando a família de Adelaide são eles próprios, ou melhor, versões sombrias deles próprios. Sombras, conforme eles se identificam.
 
A temática do duplo, ou do doppelgänger, já foi abordada extensamente no cinema. Filmes como Gêmeos – Mórbida Semelhança, Coherence, Cisne Negro, O Homem Duplicado e até mesmo Um Corpo que Cai já lidaram com esse tema, de maneiras diversas. Sabendo que está pisando em terreno já explorado, Pelle é criativo na sua concepção, trilhando por caminhos conhecidos, mas ainda assim inesperados.
 
Mais uma vez, o diretor abusa de metáforas e simbolismos. Algumas são muito claras, como a referências à Jeremias 11:11 (veja o campo de curiosidades, abaixo, para saber mais sobre isso), outras, porém, podem passar despercebidas. É o caso dos coelhos, vistos em diferentes momentos e que podem ser relacionados com o guia que levou Alice ao mundo do espelho. Por falar em espelhos, estes também desempenham um papel de destaque, relacionando-se com a trama aqui explorada. Afinal, os espelhos nos oferecem uma versão igual, porém invertida, de nós mesmos.
 
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Isso é justamente o que aquelas “sombras” que invadiram a casa de Adelaide são: versões negativas deles próprios. É por isso que, ao menos pra mim, os elementos simbólicos mais significativos são as tesouras usadas como armas pelos vilões. Afinal, as tesouras são formadas por duas partes iguais, unidas no meio. E Peele sempre procura dar uma atenção especial ao cabo das, em que é possível ver duas formas iguais, mas – novamente – invertidas.
 
Aliás, vale destacar que Peele filma muito bem, demonstrando um talento nato para criar situações ao mesmo tempo belas e assustadoras (como aquela cena no armário, em que a sombra finalmente tira sua máscara). E, sim, os sustos vêm, mas nunca como você os espera. Não se trata de uma ameaça que surge quando o personagem está de costas para a parede, mas daquela que se encontra à sua frente. Um assassino mascarado não é tão amedrontador quanto aquele que revela o seu rosto. Já as inserções de humor são bastante pontuais, servem para aliviar um pouco da tensão que foi construída, mas sem diminuir o perigo da situação.
 
Ainda assim, é questionável a necessidade de oferecer explicações no terceiro ato. Surgindo como respostas para perguntas que não foram feitas, tais explicações acabam podando muitas das teorias que se formavam na cabeça do público. O excesso de informações só não chega a estragar o resultado porque o longa ainda guarda algumas surpresas que geram novos questionamentos ao final da projeção.
 
Nós pode até não ser a nova obra-prima de Jordan Peele, mas certamente é um excelente filme, e um novo tiro certeiro na carreira de um talentoso e promissor cineasta.
 
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PERFIL DO DIRETOR JORDAN PEELE

Nascido em 21 de janeiro de 1979, em Nova York, Jordan Peele iniciou sua carreira como ator e roteirista na série de comédia MADtv, onde trabalhou de 2003 até 2008. Ele estrelou também a webssérie Obama (2008), para o site Funny or Die, na qual interpretava o ex-presidente dos EUA. Além disso, fez participações em filmes como Entrando Numa Fria Maior Ainda com a Família (2010) e Viajar é Preciso (2012). Em 2012, teve início a atração que lhe tornou mais conhecido: a série Key and Peele. Criada em parceria com o comediante Keegan-Michael Key, a série era um compilado de esquetes no melhor estilo Monty Python. É curioso notar que, em seus esquetes, Peele já abordava alguns temas que viriam a se repetir no cinema, como o racismo, a escravidão e até mesmo o gênero de terror.
 
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Peele também escreveu e estrelou (ao lado de Key) a comédia Keanu: Cadê Meu Gato?! (2016). Porém, a grande mudança na sua carreira veio com Corra! (2017), seu primeiro trabalho como diretor. Sucesso de público e de crítica, o filme lhe rendeu o Oscar de Melhor Roteiro Original, fazendo dele o primeiro afro-americano a ser premiado nessa categoria. Nós foi segundo trabalho como diretor. Atualmente, ele tem trabalhado bastante como produtor, tanto de filmes (como Infiltrado na Klan) quanto de séries (The Last O.G. e Lorena). Ele também está envolvido no remake da série The Twilight Zone e do filme Candyman.
 

CURIOSIDADES SOBRE NÓS

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O filme reflete um medo antigo do diretor.

A ideia de um duplo foi algo que sempre assustou Jordan Peele. Ele contou em entrevistas que um dos seus maiores medos é encontrar outra versão de si mesmo, em um local como a plataforma de metrô, sorrindo para ele. Trata-se de uma situação para a qual não há como se preparar.
 

Influência de Além da Imaginação (The Twilight Zone)

Além do seu medo mencionado anteriormente, uma das maiores influências de Peele para a realização deste filme foi um episódio da antiga série de TV Além da Imaginação (The Twilight Zone). Intitulado Mirror Image, o episódio mostra uma mulher que aguarda o seu ônibus numa rodoviária quando passa a ser atormentada por uma outra versão dela mesma. “É uma narrativa aterrorizante, bela e realmente elegante”, disse o diretor em entrevista à revista Rolling Stone. Curiosamente, Peele agora é um dos responsáveis pelo remake de The Twilight Zone, que estreia em breve nos Estados Unidos.
 

Jeremias 11:11

A referência a esta citação da Bíblia é vista constantemente ao longo do filme, seja pela placa que um sujeito segura na praia ou mesmo pela repetição dos números 11:11 que aparecem em diversos momentos (num relógio, no jogo da TV, etc). A citação diz: “Portanto, assim diz o Senhor: Eis que trarei sobre eles mal, de que não poderão escapar; e, se clamarem a mim, não os ouvirei”. Isso tem relação com a “Missão Divina” que o duplo de Adelaide diz estar executando, além de sugerir que não há salvação para aquelas pessoas.
 

Referências cinematográficas

Antes do início das filmagens, o diretor Jordan Peele passou ao elenco uma lista de filmes para eles assistirem. Segundo ele, esses filmes tinham uma linguagem similar àquele que seria apresentada em sua obra. A lista de filmes inclui Os Pássaros (1963), O Iluminado (1980), Voltar a Morrer (1991), Violência Gratuita (1997), O Sexto Sentido (1999), Medo (2003), Mártires (2008), Deixa Ela Entrar (2008), O Babadook (2014) e Corrente do Mal (2014).
 

A voz da sombra de Adelaide

Quem já viu o filme sabe que a “sombra” de Adelaide tem uma voz muito específica. Para compor essa característica da sua personagem, a atriz Lupita N’yongo se baseou em um distúrbio chamado disfonia espasmódica, responsável por causar espasmos involuntários da laringe. A justificativa para isso é que sua personagem não tinha o costume de usar a sua voz.
 

FICHA TÉCNICA:

Nós | Crítica, curiosidades, trailer e muito mais sobre o filme de Jordan PeeleTítulo original: Us
Gênero: Terror
País: EUA
Duração: 116 min.
Ano: 2019
Direção: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex, Yahya Abdul-Mateen II, Anna Diop, Cali Sheldon, Noelle Sheldon, Madison Curry, Alan Frazier.
 

TRAILER LEGENDADO DE NÓS

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