A mistura entre maternidade e terror não é nenhuma novidade. Filmes como O Bebê de Rosemary (1968), Os Filhos do Medo (1979), Huesera (2022), O Babadook (2014), As Boas Maneiras (2017), entre muitos outros, já abordaram temas relacionados à gravidez, depressão pós-parto ou aos sacrifícios da relação maternal. O terror finlandês Nightborn, novo trabalho da diretora Hanna Bergholm (do ótimo Hatching), parte dessa mesma premissa e, exceto pela adição de elementos da mitologia nórdica à sua narrativa, faz pouco para renovar essa fórmula.
A trama acompanha Saga (Seidi Haarla, de Compartimento Nº 6) e Jon (Rupert Grint, o eterno Rony da franquia Harry Potter), um jovem casal que se muda para a antiga casa da avó de Saga com o objetivo de iniciar sua família ali. A casa, caindo aos pedaços, fica localizada ao lado de uma densa floresta – local onde o filho do casal é concebido. Após o nascimento, porém, a protagonista passa a suspeitar de que há algo de errado com a criança, que nasceu com o corpo coberto de pelos, parece ter aversão à luz e nutre um desejo por sangue.

Como é comum nesse tipo de narrativa, os anseios e desconfianças da nova mãe são ignorados por todas as figuras de poder: o marido, a família e os médicos. Isso, por sua vez, gera um isolamento ainda maior da personagem, que passa a ter sua sanidade questionada por todos ao seu redor. Nesse sentido, os trabalhos de Haarla como a mãe depressiva, impulsiva e possivelmente descontrolada, e de Grint como o pai compreensivo – até certo ponto – são eficientes, mas um tanto burocráticos em comparação a inúmeros títulos que trabalham com temáticas similares.
A grande diferença aqui tem a ver com a relação que o filme estabelece com a mitologia nórdica, mais especificamente com certas criaturas que habitam a mata ao redor daquela casa. Aliás, a floresta não apenas cerca a casa, como parece querer invadi-la. Logo que chegam ao local pela primeira vez, o casal percebe que uma árvore está crescendo no meio do quarto da criança. Ao mesmo tempo, as raízes de outra árvore parecem avançar cada vez mais em direção à casa, enquanto arbustos cobrem suas janelas.

Assim como em A Árvore da Maldição (1990), com suas árvores retorcidas e rostos humanos escondidos nos troncos, aqui a floresta também exerce uma estranha atração sobre a protagonista. Em certo momento, descobrimos que Saga sempre teve uma relação muito forte com aquele lugar, quase como se fosse atraída para ele. E, ao que tudo indica, o sentimento é recíproco.
Diante dos absurdos da trama, a diretora Hanna Bergholm faz questão de extinguir quaisquer resquícios de ambiguidade e deixar claro, para o público, que existe algo de sobrenatural acontecendo ali; algo que só Saga – e nós – enxergamos. Outra escolha acertada da cineasta é a de esconder o rosto do bebê ao longo de todo o filme. A criança é sempre mostrada em planos-detalhe, ou de longe, ou na penumbra, mantendo assim sua aura sobrenatural – o que, por sua vez, aumenta o sentimento de urgência e perigo.

Vale destacar também a ótima direção de arte, assinada por Kari Kankaanpää (de Kraken), que utiliza as transformações da casa – que começa bagunçada e aos poucos é reformada e organizada – para ilustrar o lento processo de aceitação de Saga acerca do seu papel como mãe. O que, mais uma vez, é o mote central na maioria dos filmes que tratam da temática da maternidade dentro do terror.
Por fim, Nightborn tem, sim, várias qualidades, mas estas não são suficientes para trazer um sentimento de frescor ou de novidade. É a mesma história contada de novo, com uma abordagem um pouco diferente. Ou, para manter a metáfora: o bebê é o mesmo, só mudaram a roupa.
Essa crítica faz parte da cobertura do Fantasia International Film Festival. Confira a programação completa do festival aqui.
