Crítica | Privadas de Suas Vidas encontra humor e horror na escatologia (Fantasia 2026)

Novo longa-metragem escrito e dirigido por Gurcius Gewdner (Pazúcus: A Ilha do Desarrego), desta vez em parceria com Gustavo Vinagre (Três Tigres Tristes), Privadas de Suas Vidas apresenta a mesma escatologia e exagero pelos quais o diretor é mais conhecido, entregando um resultado que mistura horror, gore, humor e excrementos. Tal mistura deve agradar em cheio os fãs do realizador – e causar uma repulsa (proposital) em quem não está familiarizado com o seu trabalho.

A trama acompanha Malu (Martha Nowill, de O Livro dos Prazeres), uma organizadora de festas que, logo no início do filme, perde um dos filhos em um acidente envolvendo um vaso sanitário. Alguns anos depois, ela tenta reconstruir a própria rotina enquanto prepara um chá de revelação para uma influencer que mora em seu prédio e lida com a relação conturbada que mantém com sua filha, Gênesis (Benjamín), uma pessoa não binária. O planejamento da festa, porém, desperta uma entidade que habita as privadas do edifício e passa a engolir, um a um, os moradores do local.

Cena do filme Privadas de Suas Vidas

É justamente a partir dessa premissa absurda que o roteiro encontra seus momentos mais interessantes. Em vez de utilizar o horror apenas como veículo para o choque, Gewdner e Vinagre aproveitam a situação para comentar sobre temas atuais, como as relações urbanas e a precarização do trabalho. Nesse sentido, o destaque fica por conta do zelador Vilaça (Otávio Muller, de O Gorila), constantemente explorado pelos moradores do prédio até ser substituído pela terceirização.

Porém, se o roteiro acerta ao construir um conjunto de personagens secundários bizarros — entre eles, uma médium que interpreta o futuro das pessoas por meio de uma leitura dos seus excrementos —, por outro, o texto tropeça em diálogos expositivos e em uma abordagem superficial da identidade de gênero, tema central da narrativa.

Embora reconheça que a aceitação da identidade de Gênesis pela mãe seja um passo necessário para reequilibrar a relação entre as duas, o filme acaba reduzindo a personagem à caricatura de uma adolescente irritante cuja militância se manifesta quase exclusivamente pela oposição à mãe, chegando ao ponto de sabotar seu trabalho sem considerar as consequências que isso pode ter para a sobrevivência da família.

Cena do filme Privadas de Suas Vidas

Na direção, o uso frequente de longos takes e planos conjuntos durante as cenas de diálogo torna o ritmo irregular e, em alguns momentos, arrastado. Essa escolha contrasta com as sequências de horror, muito mais inspiradas visualmente. As mortes são criativas e encontram um equilíbrio curioso entre o grotesco e o cômico, com personagens sendo lentamente contorcidos e engolidos pelas privadas enquanto sangue e excrementos jorram pelo cenário. Ainda assim, há uma cena envolvendo um aborto me incomodou, pois pareceu um pouco fora do tom – ao menos para mim.

É claro que eu não sou exatamente o público-alvo do cinema de Gurcius Gewdner. Seu cinema aposta na provocação constante e faz do “mau gosto” uma ferramenta estética. Quem acompanha sua filmografia provavelmente já está acostumado com toda essa escatologia e deve se divertir com Privadas de Suas Vidas, que, apesar das irregularidades, demonstra que há método por trás de seu caos grotesco e divertido. Afinal, trata-se de um filme sobre uma ameaça sobrenatural que só pode ser combatida por um intestino cheio.

Essa crítica faz parte da cobertura do Fantasia International Film Festival. Confira a programação completa do festival aqui.