Embora haja muita discussão a respeito da classificação do noir – muitos apontam que é mais um estilo do que um gênero em si – eu sempre o vi como um gênero. Aliás, é um dos meus gêneros preferidos, depois do terror, é claro.

O gênero noir surgiu na década de 1940, como forma de categorizar filmes que traziam algumas características em comum: personagens dúbios, histórias investigativas e intrincadas, femme fatales e uma visão pessimista da sociedade.

Existe muita história por trás do gênero noir. Ele pode ser visto como uma resposta à crise nos grandes estúdios hollywoodianos, que estavam perdendo a guerra travada contra a recém-criada televisão.

Ou como uma resposta da própria Hollywood à guerra real que havia acontecido alguns anos antes. Uma guerra que mostrou para o mundo o que há de pior na humanidade – e os filmes refletiram, alegoricamente, estes temas.

Mas o noir não se limita a isso. E ele também não acabou no período clássico. Na verdade, o gênero – embora tenha passado por algumas transformações – está ativo até hoje, sendo conhecido na atualidade como neo-noir.

Ao longo deste artigo, eu vou falar um pouco sobre:

  • O que é, exatamente, o gênero noir
  • Quais são as suas principais características
  • Como surgiu essa classificação
  • O que é o neo noir
  • Quais são os melhores filmes noir
  • E quais são os melhores filmes neo noir

Ao final, eu espero ter compartilhado um pouco da minha paixão por esse gênero. E, quem sabe, possa até mesmo ter criado o interesse em outras pessoas para conhecê-lo melhor.

Vamos começar então?

O que é o gênero noir?

Embora seja difícil definir qualquer gênero cinematográfico, o noir se mostra ainda mais complicado, pois suas características se misturam com a de outros gêneros mais consagrados, como o policial e o thriller.

Não por acaso, há teóricos do cinema que afirmam que o noir não é um gênero em si, mas um estilo, ou uma característica em comum entre diferentes filmes – assim como hoje em dia temos diversos filmes de super-heróis, mas “super-herói” não é um gênero (ainda não, pelo menos).

De maneira geral e um tanto genérica, é (im)possível definir gênero noir é um estilo de filmes que ficou bastante comum na década de 1940 e 50. Reflexo do fim da 2ª Guerra Mundial, que deixou o mundo devastado, o noir foi espécie de resposta não intencional ao clima desesperançoso da época.

Eram filmes que faziam oposição ao estilo clássico hollywoodiano. Produções de baixo orçamento, centradas mais nos personagens do que na ação.

Cena do filme Pacto de Sangue

Em sua maioria, são filmes investigativos, caracterizados por uma fotografia carregada (bastante contraste entre branco e preto), estrelados por protagonistas dúbios e co-estrelados por figuras femininas misteriosas.

Trata-se de filmes que borram as barreiras entre bem e mal, entre bandidos e mocinhos. Em muitos casos, a complexidade da trama só é revelada no final do filme. Em outros casos, ela continua complexa mesmo depois de o filme terminar.

Como eu disse, é difícil explicar o que é o gênero noir, ou ainda se ele é mesmo um gênero ou apenas uma classificação. Mas talvez isso fique mais claro quando você entender como essa denominação surgiu.

Como surgiu a classificação noir?

Curiosamente, o noir não nasceu como um gênero. Foi uma classificação cunhada posteriormente, através da análise de uma determinada quantidade de filmes produzida numa mesma época.

A classificação noir cunhada no cinema pelo crítico francês Nino Frank na década de 1940. Mas Frank não criou essa terminologia. Ela já existia na literatura. Aliás, existia toda uma coleção literária lançada na época intitulada Série noire.

Observando que muitas das características dos romances eram reproduzidas no cinema, Nino fez essa ligação em um artigo intitulado “Un nouveau genre ‘policier’: L’aventure criminelle” (“Um Novo Gênero Policial: A Aventura Criminal”).

Referindo-se à produção francesa da época, Frank caracterizou aqueles filmes como produções que rejeitavam o sentimentalismo, a fantasia social e o dinamismo da morte violenta.

Personagens de filme noir

Já a produção norte americana era caracterizada, na opinião do crítico, por uma tendência à psicologia criminal e à misoginia. Segundo o crítico:

“esses filmes ‘sombrios’, esses filmes noirs, não têm mais nada em comum com a exibição comum dos filmes de detetive. Por serem histórias puramente psicológicas, a ação, violenta ou excitante, importa menos que rostos, comportamento, palavras – daí a verossimilhança dos personagens.”

Vale destacar que os realizadores não estavam cientes dessa terminologia enquanto faziam os seus filmes. Eles estavam apenas reproduzindo muitas das temáticas vigentes da época.

Até onde se sabia, eles estavam trabalhando dentro do gênero policial, conforme apontava o próprio título do artigo de Frank.

Porém, um olhar em retrospecto para esses filmes acabou classificando-os como um gênero à parte – ou ao menos como um subgênero – e o artigo de Nino teve papel determinante nessa terminologia. Especialmente por causa das características apontadas por ele.

Quais são as características do filme noir?

Anteriormente mencionei que o noir surgiu como um reflexo da guerra. Mas sua relação com época conflituosas é ainda mais intrínseca. Uma das principais características destes filmes é a fotografia (normalmente em preto e branco) bastante saturada.

Os ambientes dos filmes noir são ambientes escuros, tomados por sombras. O contraste entre claro e escuro reflete a ambivalência dos seus personagens, que não são bons o suficiente para serem heróis, mas também não se caracterizam como vilões.

Parte desta ambientação escura e opressiva é uma influência de outro gênero bastante estilizado: o expressionismo alemão. No expressionismo, luz e sombras eram utilizadas como forma de explicitar o estado de espírito de uma época devastada pela guerra.

Enquanto o expressionismo foi uma resposta metafórica da Alemanha ao período pós-Primeira Guerra Mundial, o noir foi uma resposta dos Estados Unidos à Segunda Guerra. Embora tenham saído vitoriosos do conflito, a guerra abalou a economia mundial.

Cena do filme O Terceiro Homem

Desta forma, o noir é também uma resposta financeira. Ao contrário dos grandes épicos e musicais produzidos naquela época, os filmes noir eram baratos. O seu enfoque era os personagens.

Outras características dos filmes noir são tramas intrincadas e complexas. O uso de flashbacks e narração em off também é bastante comum, como forma de explicar um pouco melhor a trama e dar ao público um pouco mais de clareza em relação ao que está sendo mostrado.

Mas talvez a principal característica do gênero seja a presença da femme fatalle. Ela é aquela mulher misteriosa por quem o protagonista – homem – é seduzido e muitas vezes levado a tomar atitudes que ele normalmente não tomaria.

O noir e suas características são frutos de uma época, mas sua referência é visível até hoje, principalmente num subgênero conhecido como neo noir.

O que é o neo noir?

Conforme foi dito anteriormente, o noir é um gênero que nasceu e se proliferou em um período bastante específico. E, de certa maneira, é um gênero que foi contido àquela época.

Isso não significa que suas características narrativas e visuais se perderam com o tempo. Pelo contrário, elas são visíveis até hoje, especialmente em filmes que ficaram conhecidos como: neo noir.

Neo noir é um termo utilizado para definir filmes modernos que homenageiam/referenciam os temas ou sensibilidades comuns aos cinema noir clássico.

A homenagem pode ser feita de maneira direta, na qual a produção parece um filme saído da década de 1940 (como em Corpos Ardentes ou Chinatown) ou pode ser mais estilizada.

O ritmo destes filmes tende a ser mais lento do que as produções contemporâneas, e os personagens mantém-se dúbios.

Blade Runner

Conforme foi dito antes, a fotografia desempenha um papel essencial nos filmes noir, e no neo noir isso também acontece, embora de maneira diferente, especialmente pelo uso das cores.

Filmes como Blade Runner – O Caçador de Andróides, por exemplo, substitui a saturação do preto e branco por outro tipo de saturação: a fotografia em neon.

Sin City – A Cidade do Pecado usa a tecnologia digital para trazer um preto e branco diferente para as telas.

Embora nem sempre sejam reconhecidos como filmes neo noir, essas obras comprovam a importância que o gênero tem para a história do cinema e a influência dele na cinematografia atual.

Muitos filmes noir se tornaram clássicos da história do cinema. Muitos neo noir estão indo pelo mesmo caminho. Vamos, então, conhecer alguns deles, começando pelos:

Dez melhores filmes noir

Se você chegou até aqui, talvez seja porque se interessou pelo assunto. Pensando nisso, fiz uma lista de filmes que considero essenciais para quem gosta ou quer conhecer o gênero noir.

A lista foi baseada misturando a importância histórica de cada filme com o meu gosto pessoal. Confira então:

Relíquia Macabra (ou O Falcão Maltês)

Esta é uma excelente maneira de começar a conhecer o gênero noir. Relíquia Macabra (ou O Falcão Maltês, como também é conhecido) é filme que carrega todas as características de um grande exemplar do gênero.

Na trama, um detetive (interpretado com o sarcasmo típico de Humphrey Bogart) se vê envolvido na busca por uma valiosa estatueta do século 16. A direção é do mestre John Huston.

Pacto de Sangue (1944)

Dirigido por outro mestre do cinema, Billy Wilder, Pacto de Sangue acompanha Walter Neff (Fred MacMurray), um vendedor de seguros que é convencido pela femme fatale Phyllis Dietrickson (Barbara Stanwyck) a matar seu marido para conseguir o dinheiro do seguro.

Adaptado de um livro de James M. Cain, o roteiro foi escrito pelo próprio Wilder em parceria com o romancista Raymond Chandler (que aparecerá de novo nessa lista). É um dos grandes clássicos do gênero.

Curva do Destino (1945)

Pequena pérola de baixo orçamento, Curva do Destino acompanha um pianista que planeja viajar através do país para visitar a namorada. Mas sua jornada sofre um desvio inesperado quando a pessoa para quem ele deu carona morre misteriosamente.

Sem esconder o baixo orçamento, o diretor Edgar G. Ulmer usa de toda a sua criatividade para conduzir a sua narrativa: em certo momento, por exemplo, ele tira a imagem de foco, para simbolizar o desnorteamento do protagonista. Um ótimo filme.

À Beira do Abismo (1946)

Humphrey Bogart (de novo) interpreta o detetive Philip Marlowe, contratado por um milionário para quitar as dívidas da sua filha mais nova. Mas não demora para que o detetive se veja envolvido em uma intrincada trama envolvendo os segredos daquela família.

Dirigido por Howard Hawks com base num livro de Raymond Chandler (sim, ele de novo), À Beira do Abismo é um filme instigante e complexo.

Fuga do Passado (1947)

Talentoso e eclético, o cineasta Jacques Tourneur passeou por diferentes gêneros ao longo da sua extensa carreira. Fuga do Passado foi a sua principal experiência no gênero noir. E o resultado é incrível.

A trama acompanha Jeff Bailey, dono do posto de gasolina de uma cidadezinha, cuja rotina tranquila é interrompida quando um conhecido do seu passado o reconhece. O filme é estrelado pelos igualmente talentosos Robert Mitchum e Kirk Douglas.

O Beco das Almas Perdidas (1947)

O Beco das Almas Perdidas acompanha um ambicioso vigarista que se envolve com uma psiquiatra mais corrupta do que ele. De início, a dupla é bem-sucedida ao extorquir pessoas usando um truque mentalista. Mas logo um se volta contra o outro.

Nightmare Alley

O filme é dirigido por Edmund Goulding e estrelado por Tyrone Power e Joan Blondell. Atualmente, o cineasta mexicano Guillermo del Toro está trabalhando num remake deste filme, que pode ser estrelado por Bradley Cooper.

O Terceiro Homem (1949)

Dirigido por Carol Reed a partir de um roteiro de Graham Greene, O Terceiro Homem acompanha um escritor americano que chega em Viena após a Segunda Guerra Mundial e descobre que um amigo seu foi morto misteriosamente.

O escritor resolve, então, investigar essa morte. Contando com uma belíssima fotografia, com fortes influências do expressionismo alemão, o longa-metragem ainda se beneficia de uma pequena, mas importante participação de Orson Welles. Um filmaço!

Os Corruptos (1953)

Dirigido pelo mestre Fritz Lang, Os Corruptos acompanha o detetive Dave Bannion, que resolve investigar o suposto suicídio de um policial. Ele conversa com a viúva dele e escuta uma história. Mas depois de conversar com a amante do homem, escuta uma história diferente.

Não demora para que Bannion se veja em meio a uma trama de corrupção envolvendo tanto a polícia quanto a máfia local. O filme é estrelado por Glenn Ford, Alexander Scourby e Dorothy Green.

A Morte num Beijo (1955)

Esta é uma obra que mistura o cinema noir com uma trama de mistério e um pouco da paranoia da guerra fria. A trama acompanha o detetive particular Mike Hammer (Ralph Meeker), que dá carona para Christina (Cloris Leachman), uma jovem misteriosa.

Os dois acabam perseguidos, agredidos e jogados de um penhasco. Ao sobreviver, Mike decide investigar o crime e se depara com uma grandiosa conspiração. A direção é de Robert Aldrich.

A Marca da Maldade (1958)

Após um carro bomba explodir na fronteira entre o México e os Estados Unidos, Miguel Vargas, um agente mexicano, inexplicavelmente interpretado por Charlton Heston, precisa investigar o ocorrido ao lado de um capitão americano Hank Quinlan (Orson Welles, que também dirige o filme).

O problema é que Vargas suspeita que Quinlan está tentando incriminar um homem inocente. Um dos grandes filmes de um dos maiores cineastas que o cinema já viu, A Marca da Maldade não podia ficar de fora dessa lista.

Melhores Filmes Neo Noir

Antes de finalizar, quero apenas listar alguns filmes do subgênero neo noir. Como estes são filmes mais conhecidos, não vou me ater a detalhes da trama.

  • Chinatown (1974): Trama intrincada com todos os elementos de um noir clássico.
  • Corpos Ardentes (1981): Uma bela homenagem ao gênero noir, desta vez com toques de erotismo.
  • Blade Runner: O Caçador de Androides (1982): Transpõe o detetive para um futuro distópico e o preto e branco dá lugar a uma fotografia em neon.
  • Gosto de Sangue (1984): Primeiro filme dos irmãos Coen, este filme traz elementos do cinema clássico e da comédia de erros que viria a se tornar característica dos cineastas.
  • Veludo Azul (1986): Mistura elementos clássicos com as bizarrices características do diretor David Lynch.
  • Instinto Selvagem (1992): Novamente misturando o noir com o erotismo, foi o filme responsável por catapultar a carreira de Sharon Stone.
  • Los Angeles – Cidade Proibida (1997): Um dos grandes filmes da década de 1990 é também um noir no estilo clássico.
  • O Homem Que Não Estava Lá (2001): Neste filme, os irmãos Coen vão ainda mais longe, fazendo um filme que se aproxima mais do noir, apoiado por uma bela fotografia em preto e branco.
  • A Ponta de Um Crime (2005): Todos os elementos do noir estão aqui, com a diferença que a história se passa numa escola e é protagonizada por adolescentes. Primeiro filme de Rian Johnson, diretor de Star Wars: Os Últimos Jedi.
  • Sin City – Cidade do Pecado (2005): Filme mantém fiel às histórias em quadrinhos de Frank Miller que, por sua vez, eram uma adaptação das tramas noir clássicas.
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