Crítica | Capitão América: Guerra Civil

No universo das histórias em quadrinhos, a Guerra Civil reuniu a maioria dos heróis – e muitos dos vilões – da Marvel numa batalha que tinha questões políticas muito claras como pano de fundo. Sua adaptação para o cinema não tem a mesma proporção, afinal os personagens estão divididos entre diferentes estúdios, mas tenta ao máximo manter a urgência, a discussão e o tom da história na qual se baseia. Ainda que este último seja um pouco prejudicado pelas constantes inserções de humor, de maneira geral Capitão América: Guerra Civil entrega não apenas um produto digno da HQ na qual se baseou, como também – e acima de tudo – um ótimo filme, construído de tal forma que funciona sozinho e em sua totalidade.
Escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely (Capitão América 2: O Soldado Invernal), o roteiro tem início mostrando uma missão dos vingadores para caçar o Ossos Cruzados (Frank Grillo). Quando essa caçada acaba culmina com a morte de diversas pessoas inocentes, é estabelecida uma medida de regulamentação do trabalho dos super-heróis, que devem operar sob a supervisão dos governos mundiais. Tal medida tem o apoio de Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), porém é vista com desconfiança por Steve Rogers/Capitão América (Chris Evans). As visões políticas distintas causam uma cisão na organização dos Vingadores, mas é só depois de um ataque terrorista supostamente realizado por Bucky Barnes/Soldado Invernal (Sebastian Stan) que o conflito de fato tem início. Paralelo a isso, o misterioso Zemo (Daniel Brühl) inicia um plano de vingança que tem alguma relação com o passado de Barnes e dos Vingadores.
Tratando de um tema fantástico de forma bastante racional e realista, os roteiristas acertam ao trazerem uma discussão bem argumentada de ambos os lados, sem nunca cair no maniqueísmo – algo que, de certa maneira, aconteceu nos quadrinhos quando o Homem de Ferro passou a recrutar vilões para o seu lado. Aqui, a discussão é articulada entre dois polos racionais e com pontos de vista bem estabelecidos, deixando que a questão emocional seja relegada à figura de Zemo. Mantendo essa ideia de realismo, o texto também aborda a repercussão das ações das ações dos heróis e o fato de que a própria presença deles instiga a criação de ameaças cada vez maiores e mais violentas. Ou seja, eles são responsáveis pela criação dos vilões e por isso, são igualmente responsáveis pelo mal causado por estes. É por isso que nunca se leva em conta que os acontecimentos de Nova York, Washington ou Sokovia são obras de vilões, mas sim de heróis que permitem/influenciam/concebem esse mal.
Apesar de ser um filme do Capitão América, quem tem mais espaço para desenvolver os dramas do seu personagem é o Homem de Ferro. E é um alívio ver Robert Downey Jr. saindo do automático para entregar uma atuação muito mais sensível. Abandonando a persona brincalhona dos longas anteriores, o seu Tony Stark é visto aqui como alguém traumatizado pela perda dos pais, por ter criado o Ultron, por ter se separado da mulher que ama e, principalmente, por não conseguir – ou por não querer – parar de fazer o que faz. Chris Evans também se destaca pelas nuances na sua atuação. É visível como seu Steve Rogers se mostra dividido em relação à questão política apresentada. Em certo momento ele chega até a cogitar assinar o documento do governo, não porque concorde com a regulamentação, mas para tentar evitar o que parece ser um conflito inevitável.
Refletindo a grandiosidade que a trama pede, os diretores Joe e Anthony Russo (Capitão América 2: O Soldado Invernal) investem na interação entre os heróis, que são vistos sempre trabalhando em conjunto, e num ritmo frenético. Mesmo assim, a geografia das cenas é muito bem detalhada, mantendo o espectador sempre localizado em relação ao conflito. Da mesma maneira, é interessante perceber como o poder e as habilidades de cada membro do grupo é explorado de tal forma que o diferencie dos demais. Reparem como o design de som suprime quase todos os ruídos do Pantera Negra (incrível, por sinal) e como a velocidade dos movimentos do Homem-Formiga (melhor aproveitado do que no seu próprio filme solo) se altera à medida que ele muda de tamanho. E ainda que eu não consiga entender como o Capitão América opte por dar socos no Homem de Ferro – que parece ferir mais quem confere o golpe do que quem recebe –, entendo que se trata de uma estratégia necessária para o bom funcionamento do longa.
Porém, existe outra estratégia que, na minha opinião, prejudicou o tom da narrativa: o seu humor. Mesmo que algumas piadas funcionem (como a relação entre o Falcão e o Soldado Invernal), outras prejudicam a percepção do público em relação ao conflito. A tal batalha principal é recheada de momentos engraçadinhos que tiram a seriedade que aquela ocasião pedia. Afinal, quem vai levar a sério uma briga em que, antes de proferir um golpe, um personagem pergunta para o outro: “ainda somos amigos?”. Ou como sentir qualquer aflição em uma luta na qual as pessoas parecem se preocupar mais em brincar com a situação do que em brigar uma contra a outra? Ao contrário da história em quadrinhos, na qual o conflito se esvai à medida que avança, aqui a briga já começa vazia de sentido, sacrificando assim todo o seu impacto. E sim, o humor é característico da Marvel, mas o tom desta produção é diferente. Prova disso é o clímax, que é muito mais sério e condizente com a trama.
Quanto ao tão aguardado retorno do Homem Aranha, é inegável que ele é a melhor coisa do filme, apesar de ele estar deslocado do restante da narrativa. A impressão que fica é que o longa já tinha sido escrito antes da Marvel conseguir os direitos os seus direitos de uso, e que ele foi inserido depois de forma que não prejudicasse a estrutura anterior (apesar de os diretores garantirem que ele estava lá desde o início). Tanto é que ele é o único não afetado pelos conflitos. Todos os demais envolvidos na briga sofrem algum tipo de consequência, menos o Homem Aranha, que é descartado logo em seguida. Isso só não chega a atrapalhar por conta do carisma do seu intérprete. Além de finalmente terem escalado um ator jovem para o papel, é visível a preocupação do roteiro em, de fato, tratá-lo como um adolescente. Em certo momento, por exemplo, ele sequer consegue articular as palavras para explicar as suas motivações. Da mesma maneira, as suas inserções de humor são as que funcionam melhor, afinal trata-se de um jovem metido no meio de um universo fantástico.
O longa também serve para estabelecer a relação de mentor/aprendiz entre Tony Stark e Peter Parker, algo que será mais bem explorado na aventura solo do aracnídeo, e para apresentar o Pantera Negra e parte da sua mitologia. Porém, o grande mérito de Capitão América: Guerra Civil é não fazer disso o seu foco principal. Apesar de ter relação com os anteriores, este é um filme que funciona muito bem sozinho, e não apenas como uma prévia do que está por vir. E é por isso que esta é uma das melhores produções da Marvel.
FICHA TÉCNICA
Título original: Captain America: Civil War
Gênero: Aventura
País: EUA
Ano: 2016
Duração: 147 min.
Direção: Anthony Russo e Joe Russo
Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely
Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Don Cheadle, Paul Bettany, Chadwick Boseman, Anthony Mackie, Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Paul Rudd, Tom Holland, Marisa Tomei, Emily VanCamp, Daniel Brühl, William Hurt, Martin Freeman, John Kani, John Slattery, Alfre Woodard, Jim Rash, Hope Davis.