Escrito e dirigido por Andrew J.D. Robinson, We Are the Missing (2020) é um falso documentário que parte de uma premissa simples, mas amplia gradualmente seu escopo narrativo, construindo uma trama intrigante que contorna parte de suas limitações de produção – ainda que sucumba a outras. O mais curioso, porém, é perceber que a principal qualidade do filme não está necessariamente na história que conta, mas no significado que ela adquiriu: algo alheio às intenções ou ao planejamento do diretor.
A trama acompanha uma documentarista que está fazendo um filme sobre uma garota que desapareceu recentemente. Em sua investigação, a cineasta Carter (interpretada por Eleonora Poutilova) conversa com amigos e familiares da jovem, tentando entender o que pode ter acontecido. Embora chegue a levantar algumas suspeitas, logo fica claro que a investigação não levará a lugar algum. Até que algo muito estranho acontece: um número cada vez maior de pessoas envolvidas também começa a sumir.

Com isso, a história, antes centrada na realidade e bastante limitada, ganha contornos sobrenaturais e adquire um escopo cada vez maior. E nesse ponto, o diretor Andrew J.D. Robinson acerta ao adotar a linguagem da internet como forma de simbolizar essa ampliação da trama. O filme traz relatos de várias pessoas diferentes misturados com notícias de jornal, trocas de mensagens e entrevistas. Ou seja, é a linguagem do documentário misturada com a linguagem da internet.
Curiosamente, o filme acabou adquirindo um sentido diferente daquele intencionado pelo diretor durante a sua realização. O enredo sobre o desaparecimento de pessoas queridas e uma ameaça global ganhou um novo significado a partir do lançamento de We Are the Missing em 2020, no auge da pandemia do coronavírus. Naquele momento, a obra conseguiu involuntariamente dialogar com o seu tempo, o que tornou a sua temática ainda mais pungente.

Ainda assim, é preciso destacar que o filme tem, sim, vários problemas. E o maior deles é, sem dúvida, as atuações. Isso se torna evidente principalmente nas cenas em que os personagens aparecem dando entrevistas. A fala não soa nada natural, deixando claro que os atores estão recitando um texto já escrito. Não só isso, mas todas as pessoas falam de um jeito parecido, com os mesmos maneirismos e a mesma articulação, o que sugere que o diretor/roteirista lhes entregou as falas prontas e deixou pouco espaço para improviso.
Vale destacar, porém, que a roteirização das falas é um recurso normal (e intrínseco) a uma obra de ficção. E esta é, de fato, uma obra de ficção. Porém, é também uma obra que se propõe a emular a linguagem do documentário. E nesse caso, o excesso de planejamento e controle narrativo acaba prejudicando essa proposta. Afinal, quando aquilo que deveria soar natural se torna excessivamente ensaiado e controlado, o (falso) documentário acaba se parecendo demais com um filme de ficção.

Além disso, existem algumas escolhas narrativas que o diretor faz mais para o final do longa – envolvendo uma troca em quem está comandando aquele documentário – que não servem para nada e causam mais confusão do que trazem benefícios ao filme. Apesar de tudo isso, We Are the Missing consegue ser intrigante o suficiente para segurar a atenção do espectador. Uma grata surpresa.

