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Crítica – Branca de Neve e o Caçador

Adaptações de contos de fadas estão em alta no cinema. Depois de Alice no País das Maravilhas e do
horroroso A Garota da Capa Vermelha,
esse ano duas versões da história da Branca de Neve chegaram às telas. A
primeira foi o fraco Espelho, Espelho Meu,
do indiano Tarsem Singh, e agora, nessa sexta-feira, Branca de Neve e o Caçador estreia nas salas brasileiras com a
promessa de trazer uma versão mais sombria e diferente do clássico conto dos
irmãos Grimm. Em comum com os demais títulos citados anteriormente, o longa de
estreia de Rupert Sanders tem boas intenções, elenco grandioso e uma ideia mal
executada, que o levam a um resultado inferior.
A história bastante conhecida mostra Branca de Neve (Kristen Stewart),
uma jovem princesa presa no castelo por Ravenna (Charlize Theron), a madrasta
má, após a mesma assassinar seu pai e assumir sozinha o trono. Anos se passam,
o reino decai e a rainha mantém seu posto de mais bela – sugando a beleza e
juventude das camponesas – até o dia em que recebe a notícia do seu espelho
mágico que sua enteada é de fato a mais bela do reino e que a beleza da garota
pode ser sua ruína. Porém, antes que ela consiga fazer alguma coisa, Branca de
Neve foge de sua prisão e se esconde na temida floresta negra, local onde
ninguém arrisca se aventurar. Para encontra-la, o Caçador (
Chris Hemsworth) é chamado. Viúvo e com tendências suicidas ele
aceita a tarefa de caçar a princesa e trazer seu coração. E aí que a história
muda: ao invés o coração de um animal de volta à rainha, ele foge com a
princesa, visando chegar a um reino próximo onde um exército amigo do falecido
rei possa ajudá-la a tomar de volta seu reino à força.
Tomar liberdades criativas é uma ideia bem vinda, já que traz originalidade
a uma história que todo mundo conhece. Sendo assim, criações puramente visuais
– como o banho de leite –; imagens que trabalham com contraste de cores e
cenários – sangue e neve ou floresta negra e santuário, por exemplo –; e abordagens
psicológicas – como o fato de somente a rainha ver seu espelho no formato de
pessoa, indicando possíveis problemas psicológicos da mesma e apresentando a
teoria que o espelho de fato “reflita” o seu próprio pensamento, algo que até
poderia estar implícito no conto original, mas nunca havia sido desenvolvido
dessa forma – surgem na tela de maneira criativa e interessante.
O mesmo não pode ser dito do roteiro que insere um flashback da infância da Ravenna, com o intuito falho de dar
densidade a uma personagem que funcionaria melhor se fosse apenas a
personificação do mau. Aliás, é no roteiro que residem os maiores defeitos de Branca de Neve e o Caçador. Escrito pelo
trio Evan Daugherty, John Lee Hancock e Hossein Amini, o texto apresenta uma
série de diálogos autoexplicativos e toscos (“Imortalidade… para sempre”), além de um dos piores discursos
motivacionais já feitos: “prefiro morrer
hoje do que viver mais um dia dessa morte”
. Não só isso, mas o texto ainda
tenta apresentar um triangulo amoroso à la “Crepúsculo” em que bastam alguns
segundos para que a plateia saiba como vai terminar – o que não justifica
manter suspense quanto a isso por tanto tempo.
Oriundo dos comerciais, Rupert Sanders sabe muito bem criar uma concepção
visual interessante, com planos em contraluz e descontinuidade proposital –
como na cena da floresta negra –, porém ele parece não perceber que no cinema
as cenas, por mais bonitas que sejam, precisam de um sentido narrativo: por
exemplo, é bonito ver os atores cavalgando em câmera lenta pela praia enquanto
os respingos da água e da areia preenchem todo o quadro, mas isso acaba não
valendo de nada se quando eles chegam no seu objetivo, precisam ficar parados
na frente de um portão esperando que esse se abra para que de fato possam
batalhar.
Mantendo sua usual inexpressividade ao encarnar uma Branca de Neve
vestindo armaduras e empunhando espadas, Kristen Stewart não chega a atrapalhar
a trama (o que era a preocupação de muita gente que torce o nariz para a atriz);
ao contrário de Charlize Theron, que limita-se a gritar – de maneira um tanto
irritante – durante quase toda a projeção. E se Chris Hemsworth continua com a
pose de galã e esbanjando bom humor, o destaque fica mesmo para o grande elenco
de anões (desculpe o trocadilho). A química entre os oito (isso mesmo, oito) – Ian
McShane, Bob Hoskins, Ray Winstone, Nick Frost, Eddie Marsan, Toby Jones,
Johnny Harris, Brian Gleeson – rende alguns dos melhores momentos do longa. Mas
isso não chega a ser suficiente para salvar o filme que, ao final, entrega (mais
uma vez) um resultado apenas mediano.
Agora é esperar para ver como a adaptação de João e Maria, estrelada por
Jeremy Renner e Gemma Arterton, vai se sair.

(Snow
White and the Huntsman – Aventura – EUA – 127 min)
Direção: Rupert Sanders
Roteiro: Evan Daugherty,
John Lee Hancock e Hossein Amini
Elenco: Kristen Stewart,
Chris Hemsworth, Charlize Theron, Sam Claflin, Sam Spruell, Ian McShane, Bob
Hoskins, Ray Winstone, Nick Frost, Eddie Marsan, Toby Jones, Johnny Harris,
Brian Gleeson, Vincent Regan.

Nota:(Regular) por Daniel Medeiros

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