Recentemente, o cineasta Guillermo del Toro participou de um painel durante a San Diego Comic Con, onde falou sobre a impossibilidade de criar arte por meio de um aplicativo. Segundo ele, as imagens geradas por inteligência artificial oferecem um resultado pronto, ignorando todo o processo criativo que leva até esse resultado. Além disso, faltam a essas criações o que del Toro considera essencial: personalidade, conhecimento e emoção. Mesmo que não de forma proposital, o longa-metragem Lucid, exibido no Festival Internacional Fantasia, discute justamente isso: a dor e a necessidade de se criar arte – e o preço que esse processo cobra do artista.
Escrito e dirigido por Ramsey Fendall e Deanna Milligan (baseado em um curta homônimo lançado em 2017), o filme acompanha Mia (Caitlin Acken Taylor), uma jovem estudante de artes que enfrenta um bloqueio criativo. Ela precisa entregar um autorretrato para não reprovar, mas nada do que apresenta consegue passar pelo crivo do professor e dos colegas. Em busca de vencer suas limitações, Mia descobre uma droga capaz de abrir as portas da mente e liberar toda a criatividade reprimida. Ao experimentar, o resultado inicial ainda não a satisfaz, e ela decide aumentar cada vez mais a dose, o que resulta em uma criação artística mais livre, mas também desbloqueia memórias escondidas do passado da artista.

Fendall e Milligan adotam um estilo nada convencional de direção, apostando na mistura de referências e no exagero. As atuações soam propositalmente forçadas e as situações um tanto absurdas. A narrativa é construída como um fluxo de pensamento, no qual somos jogados em meio a um pesadelo já em andamento, e precisamos nos localizar em meio à loucura do que é mostrado. Idas e vindas no tempo, misturados com imagens fantásticas e cenas – aparentemente – desconexas ajudam a colocar o espectador dentro da mente da protagonista. As cenas das alucinações da protagonista – aquelas envolvendo uma porta trancada – são o grande destaque do filme, mas também acabam soterrando uma subtrama emocionante – e importante – envolvendo a relação de Mia com a sua mãe.
A dupla de diretores/roteiristas também se divide nas funções técnicas, com Fendall assinando a direção de fotografia e ambos cuidando da montagem do filme. E vale aqui destacar esse aspecto técnico da obra, cuja captação parece ter sido feita em película (ou foi tratada de tal maneira para causar esse efeito). Essa opção dialoga diretamente com a ambientação do filme na década de 1990, antes da revolução digital que vivemos hoje. Já a montagem privilegia muito mais o estado emocional da protagonista do que qualquer linearidade ou lógica cronológica. O objetivo não é contar uma história de forma tradicional, mas transmitir ao público o que Mia sente.

Contrastando com o título, o estilo psicodélico de Lucid certamente deve encontrar o seu público entre os fãs do cinema experimental de cineastas como Alejandro Jodorowsky, ou mesmo do estilo mais cru, porém igualmente experimental, de cineastas como John Waters. Pessoalmente, não é um estilo que me atrai, mas ainda assim fiquei fascinado pela forma como o longa aborda o processo criativo e critica a necessidade de “explicar” a arte. A arte gera emoção, e a emoção não precisa ser racional. Isso é ilustrado de maneira magistral no final do filme, quando Mia consegue expor toda a sua emoção – e o seu coração – para os colegas de classe.
Ao final, este é um filme que explora a arte como algo a ser sentido e a ser compartilhado. Não por acaso, chamamos de “exposição” o ato de apresentar obras de arte: porque nelas não está exposto apenas o objeto, mas o próprio artista. É a personalidade, o conhecimento e a emoção do criador que se revelam ali para todo mundo ver. E, como del Toro disse, isso é algo que nenhuma inteligência artificial consegue fazer.
Lucid faz parte da programação da 29ª edição do Fantasia International Film Festival. Mais informações aqui.
