Crítica – O Espetacular Homem-Aranha

Abordar a origem de um super-herói já estabelecido nos
cinemas é sempre uma escolha arriscada. Ainda mais se o herói em questão já tem
uma franquia bem elaborada (pelo menos dois, de seus três capítulos) em que tal
origem já foi contada de maneira eficiente. Sendo assim fica a dúvida de qual o
motivo que levaria o estúdio a querer reiniciar uma franquia tão recente? E o
motivo (é lógico) é financeiro. Introduzindo Peter Parker novamente nos
cinemas, ainda no colégio e com atores mais jovens, se dá início assim ao que
possivelmente se tornará uma nova (e lucrativa) trilogia.

Porém não acho que caiba aqui maiores informações sobre os
bastidores dos estúdios hollywoodianos e suas decisões. Assim como não acho que
eu, como crítico, devo avaliar negativamente um filme baseado no fato de que eu
já conheço a história contada. Levando isso em consideração, o que segue abaixo
é um texto analítico de O Espetacular
Homem-Aranha
, suas propostas, características, execução, atuações, e tudo
mais que normalmente é avaliado. E, mais importante, sem levar em conta os 3
longas dirigidos por Sam Raimi.

Na trama, Peter Parker (Garfield) é um garoto solitário
que mora com os tios (Sheen e Field) após ser abandonado pelos pais quando
ainda era criança. Peter cresceu sem saber muito sobre os segredos que
envolviam seus pais (Scott e Davidtz) e quando encontra uma maleta com
estranhos documentos, resolve investigar. É então que ele chega até o cientista
Curt Connors (Ifans), cujas pesquisas envolvem a polêmica cruza de características
genéticas entre diferentes espécies. Bisbilhotando pelo laboratório da Oscorp
(onde Connors trabalha), Peter acaba sendo picado por uma aranha utilizada nas
pesquisas, o que lhe confere diversos poderes característicos do aracnídeo. Não
demora muito para que ele perceba que
“com
grandes poderes, vem grandes responsabilidades”
(não se preocupe, essa
frase não está no filme).
Como se pode perceber, o roteiro – escrito por James
Vanderbilt (Zodíaco), Alvin Sargent (Homem Aranha 2 e 3) e Steve Kloves (Harry Potter) – inova ao introduzir os personagens
dos pais de Peter, tornando-os o centro de um grande mistério que é apenas
apresentado nesse primeiro capítulo. Tal estratégia narrativa, bastante comum
nos quadrinhos, serve para criar uma teia de eventos, visando não depender
tanto das coincidências para que a história aconteça. Agora o surgimento do herói
está diretamente relacionado ao surgimento do vilão; assim como o fato de Peter
namorar a filha do capitão da polícia (Leary) justifica as decisões deste em
certo momento do terceiro ato.
Entretanto a tal teia mencionada acaba sendo também o
maior defeito no texto. Nessa necessidade de manter tudo interligado, os
roteiristas parecem terem se equivocado em algumas escolhas, como no fato de
que Gwen Stacy (Stone), uma garota de 17 anos, ocupe uma posição de prestígio
em uma companhia tão rigorosa quanto a Oscorp e, além disso, também seja capaz
de preparar substancias químicas como uma verdadeira cientista.
Com apenas um longa no currículo, o bom (500) Dias Com Ela, o diretor Marc
Webb  não faz feio nas cenas de ação,
apresentando uma montagem rápida que alterna entre planos abertos e cenas em
primeira pessoa. Porém o grande destaque fica por conta de seu ritmo nas cenas
de diálogo (ou a falta dele), auxiliando a apresentar assim a timidez do personagem
principal – o que faz um contraponto notável com seu sarcasmo característico
quando veste o universo.
Mas isso também é mérito de Andrew Garfield, que demonstra
muito carisma e convence como um adolescente emburrado. O mesmo não pode ser
dito de Emma Stone, que por mais bela que seja, já não se passa mais por uma
menina de 17 anos. Enquanto isso, o tio Ben e a tia May de Martin Shenn e Sally
Field fazem um bom contraponto dramático sem precisar de repetições ou frases
de efeito (“com grandes pod…”).
Fechando o elenco, o Lagarto de Rhys Ifans apresenta elementos interessantes,
mas que podem não agradar os fãs dos quadrinhos. Sua fisionomia semi-humana e a
ausência do focinho que ostenta nas histórias originais, indicam que o vilão na
verdade não se transforma de fato em outra pessoa (como um Lobisomem faria, por
exemplo), mas que usa o soro para ampliar o seu potencial, tanto físico quanto
psicológico – o que faz com que seja plausível que ele, mesmo “transformado”, consiga
fazer misturas químicas, por exemplo.

 
Considerações
finais:
Conforme
afirmei no início do texto, evito fazer aqui uma comparação entre esse filme e
o de 2002, já que não acho que seja justo com o material de análise.
Entretanto, pelo menos duas observações precisam ser feitas a respeito dessa
relação. São elas:
1 – O fato do roteiro não explicar todos os poderes do
herói – como o sentido aranha, por exemplo –, revela uma dependência muito
maior da série original e uma contradição em relação a toda essa ideia de
recomeço;
2 – Sem levar em conta que a criação do vilão é mesma utilizada
por Sam Raimi com seu Duende Verde, é impossível admitir a tentativa frustrada
do roteiro de inserir uma dualidade psicológica por parte do Lagarto. O
personagem falando sozinho, revelando assim sua dupla personalidade, é uma
criação do longa original (e não do quadrinho que o originou), e utilizar isso
novamente aqui seria considerado plágio, caso o estúdio responsável não fosse o
mesmo.

Para finalizar, e finalmente fazer uma
comparação, basta dizer que apesar de não fazer jus ao adjetivo conferido no título,
O Espetacular Homem-Aranha é muito
melhor do que Homem Aranha 3. Entenda
isso como quiser.

(The Amazing Spider-Man – EUA – Aventura – 2012 – 126 min.)
Direção: Marc Webb
Roteiro: James Vanderbilt, Alvin Sargent e
Steve Kloves
Elenco: Andrew Garfield, Emma
Stone, Rhys Ifans, Denis Leary, Martin Sheen, Sally Field, Irrfan Khan,
Campbell Scott, Embeth Davidtz, Chris Zylka e C. Thomas Howell.

Nota:(Bom) por Daniel Medeiros


One thought on “Crítica – O Espetacular Homem-Aranha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *